Quando os portugueses chegaram no que hoje é o Brasil, estimativas divergem que a presença de nativos dessa terra girava entre 2 a 8 milhões de pessoas. Essa imensa população estava dividida em milhares de povoamentos, falantes de 1000 a 1500 idiomas e dialetos de diferentes troncos linguísticos, e com descendência de variadas etnias. Portanto, não havia uma "língua brasileira" unificada antes da chegada europeia.
Em 1500, grande parte da população nativa que ocupava o litoral do que hoje é o Brasil era da etnia Tupi, subdividida em diversos grupos, como os Tupiniquins, Tupinambás, Caetés, Carijós, Tamoios e muitos outros. Esses povos não tinham o mesmo idioma, mas eram falantes de dialetos provenientes do mesmo tronco linguístico, o Tupi (cuidado para não confundir a etnia Tupi), sendo esse o maior conjunto linguístico nosso território, até hoje são falados 45 idiomas provenientes do Tupi, como o Tupi-Guaraní, um idioma oficial dos nossos vizinhos paraguaios.
Portanto, mesmo sem uma lingua unificada, é possivel afirmar que o idioma mais falado no Brasil era o Tupi, e isso foi determinante para a formação do que hoje temos como português-brasileiro. Do tupi antigo, nasceu o Nheengatu (Lingua Geral Amazônica) e a Língua Geral Paulista, uma sintese de idiomas provenientes do Tupi e do Português; e desses idiomas, nasceu o nosso idioma atual.

O conceito de torcer é algo unico do idioma português-brasileiro. Assim como a palavra saudade, não há tradução em outras línguas. Sendo assim, é claro que na nossa busca pelo "torcer" nativo dessas terras, não vamos encontrar uma tradução literal, e sim, algo próximo ao conceito de torcida. Até porque os esportes e as torcidas nasceram depois desse idioma ser despopularizado.
Gente da mesma laia
Eduardo de Almeida Navarro, professor de Tupi Antigo e Nheengatu na Universidade de São Paulo (USP), escreve em um artigo para a Revista Letras Raras que os significados das palavras em idiomas indígenas foram transmitidos por muitas décadas sem um estudo e comprovação documental do seu uso.
Em nossa pesquisa, essa evidência ficou muito clara ao buscarmos referências para um coletivo de pessoas que apoiam algo ou alguém, nos deparamos com o uso informal da palavra gwaya, com uma conotação de "pessoas do mesmo povo", "semelhantes" ou, de certa de forma, pejorativamente, "gente da mesma laia".
Seguindo a tendência apontada por Navarro, não houve um registro documental do que significava a palavra. Fruto desse uso informal, a grafia também sofria alterações, sendo expressa também como Guaiá, Goyá, Goyaz. Futuramente, o uso esse termo foi relacionado a um grupo indígena específico no centro-oeste brasileiro, os Goiá. Na Revista Signótica, Antón Corbalo Quintela publicou um artigo que fala sobre a hipótese do nome desse povo ser a origem do nome do estado de Goiás.
Há, também, uma relação de oposição entre a palavra gwaya e a palavra tapuia, origem da denomimanção de outros povos nativos brasileiros. No tupi, tapuia tem a conotação de "inimigo", "alguém de fora, diferente". Já gwaya, é o antônimo, "um semelhante", "um dos seus".
Na pesquisa, um dado curioso apareceu para gente. Sem relação linguística alguma com o Tupi, gwaya aparece em dialetos da África Oriental com a ideia de "seguir em frente", "persistir", algo que também casa com a ideia de torcer.
Portanto, no nosso conceito, respeitando e valorizando a história e ancestralidade brasileira, podemos fazer uma analogia entre gwaya e torcida. Afinal, existe alguém mais "da mesma laia" que torcedor de futebol?
Torcer é brasileiro. Gwaya também!
